1

Qual a sua idéia de família?

Foto em preto e Branco de um homem negro segurando um recém nascido próximo ao rosto com expressão amorosa. O bebê de olhos ainda fechados está com o rosto encostado no queixo do pai.

Na sequência, um dos homens abre a porta para outro e se abraçam. O mesmo acontece com duas mulheres e um casal hétero.

O comercial, que já beira quase dois milhões de visualizações, traz um importante recorte das mudanças da sociedade a partir das diferentes formas de amar e se relacionar.

Indignação genuina ou hipocrisia? – alvo de crítica por parte de parte dos consumidores, a campanha chama atenção e amplia o tema para uma discussão que vem sendo travada nas redes sociais e também no Congresso: o conceito de família nos dias de hoje.

Estatuto da Família – esse é projeto que tem sido alvo de polêmica na Câmara dos Deputados, projeto de lei 6583/2013, de autoria do deputado evangélico Anderson Ferreira.

O texto define como família apenas casais formados por um homem e uma mulher, ou um dos pais e seus descendentes.

Casais homossexuais serão impedidos de casar e de adotar crianças – ambos direitos já reconhecidos pela Justiça, mas não previstos em lei.

Isso porque o projeto modifica o Estatuto da Criança e do Adolescente para exigir que as pessoas que queiram adotar sejam casadas civilmente ou mantenham união estável de acordo com a Constituição. Esta, por sua vez, reconhece explicitamente apenas a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar

 Você Concorda com isso?- em enquete no site da Câmara dos Deputados, é possível opinar sobre o projeto, respondendo a pergunta:

“Você concorda com a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher, prevista no projeto que cria o Estatuto da Família? “

Não sou Gay nem Família – e agora?: pensando nesta questão, vi que estou tão enquadrada no conceito de família quanto os homossexuais, mesmo não sendo gay. Pois durmo todo dia com uma mulher diferente: uma cuidadora que se reveza. Posso dizer que esse é o meu núcleo familiar.

Afinal, elas me acompanham para cima e para baixo e garantem meu bem estar e segurança. São extensões do meu corpo, mas também meu alicerce. Há ideia mais apropriada de uma família que essa?

Nunca pautei meu trabalho por convicções. Acredito no respeito às diferenças, considero todas as religiões. Mas minha maior fé está no ser humano e na tolerância, lição para qualquer humanidade.

Quem pode dizer o que é a família? O Estado? A Justiça?  Ou quem de fato tem disposição e amor para formar um laço que vai muito além de convenções? Pensem nisso .

 




Onde dói?

mulher está com a mão esquerda sobre o pescoço e ombro, e faz cara de dor. Ela está de cabelo, cor castanho, preso no topo da cabeça.

Young Woman Holding Her Neck in Pain — Image by © Royalty-Free/Corbis

Em geral percebemos em casa: a gente nota um desconforto na pessoa e aí começam as tentativas de adivinhação. Sabemos que não é recomendada auto medicação, mas, como a maioria das pessoas tem uma farmácia particular em casa, tudo começa com uma dipirona para aliviar uma possível dor.

Mas…e se for dengue e a gente deu dipirona?? Desespero….

Nunca consegui entender como os pediatras adivinham tudo- ou quase tudo – que os bebês têm. E os veterinários idem entendem tudo ou quase tudo que incomoda os bichinhos – e eles também não falam.

Mas chegar com alguém com deficiência, que não consegue falar, em um consultório médico é sempre uma aventura no mínimo delicada. E acredite: dá preguiça de sair de casa, ouvir o óbvio e ver aquela cara de espanto dos profissionais da saúde.A reação quase sempre é aquela de quem viu pousar uma nave de onde saiu um extraterrestre.

Armadilha – muitas vezes a gente não aguenta e começa a dar pistas, o que estraga tudo, porque eles interrompem o raciocínio – e passam a seguir a linha das nossas dicas.

Uma vez chegamos com o Marcos em um hospital e ao deitar ele esticava a perna e chorava. Caímos na besteira de dizer que achávamos que ele estava com dor no nervo ciático. Mil exames da cintura para baixo e NADA.

menino olhando de lado e olhos numa visão lateral, está com a mão esquerda aberta junto a orelha esquerda, como estivesse tentando escutar melhor.

Saímos horas depois sem diagnóstico. Surpresa foi no dia seguinte descobrir que ele estava com uma infecção no ouvido. Custava investigar o corpo inteiro?

Mas não para aí pois se o problema for neurológico tudo se complica, infelizmente. E não estou sendo leviana, é fato, baseado em estatísticas.

Falta coração – custo a entender que alguém invista em anos e anos de estudos, pesquisas, especializações, mas não consiga colocar em prática o principal: atenção, amor, olho no olho, observação, carinho – porque isso nenhuma faculdade ensina, é um exercício diário e tão importante para o diagnóstico e tratamento quanto o conhecimento clínico.

E quando a gente finalmente aprende isso, resolve tanta coisa…

Mas, enquanto isso não acontece, viva a dipirona!!

 

 




“Iaiá, você vai à Penha?

Igreja e Convento de Nossa Senhora da Penha, em Vila Velha, Espirito Santo. Na imagem noturna, aparece toda a construção, na cor branca no topo de um monte sobre as pedras e apenas uma escada de muitos degraus.

No alto de uma montanha de pedra, há mais de 400 anos, o Convento de Nossa Senhora da Penha, se mistura a história do povo capixaba e resiste aos tempos e ventos de Vitória.

Todos os anos na “Festa da Penha”, em um momento importante de fé e devoção, mais de 1milhão de pessoas sobem o penhasco para fazer seus pedidos e agradecer.

E em 2006 as pessoas com deficiência passaram a compor esse grupo de romeiros que além da confiança na virgem, colocam em prática sentimentos e demandas de cidadania.

Novos tempos velhas práticas – foi o Frei Pedro Palácios em 1558 quem deu inicio a essa grande festa, na época sem ter a acessibilidade.

Hoje, em pleno século XXI ainda não é possível uma pessoa com deficiência acessar e conhecer o imponente patrimônio histórico do Espírito Santo.

Rapel e escalada – incrível mas, no momento, essas são as únicas alternativas, para chegar lá, para quem não caminha.

Ora, eliminar as barreiras físicas e sociais dos espaços, edificações e serviços destinados à fruição do patrimônio cultural é medida indispensável para que as pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida possam ser incluídas no processo de conhecimento de nossa cultura e história.

Falta vontade política, força e informação – hoje, toda edificação tombada precisa de adequações para o uso – e isso não inclui apenas a acessibilidade, mas também banheiros, piso adequado e sinalização. Portanto, a questão não é ‘se’ fazer e sim ‘como’ fazer”.

Tombado não quero dizer imexível – um dos motivos pelos quais o acesso a bens culturais é dificultado para pessoas com deficiência, é a falta de informação. Há uma falsa noção de que o tombamento impede qualquer tipo de transformação, que o lugar perderá sua identidade.

Não é bem assim – há um mínimo de preservação e um mínimo de acessibilidade que devem ser respeitados em qualquer edificação tombada. Para que se preserve a identidade do bem cultural, deve prevalecer a distinguibilidade, isto é, saber discernir o que é original daquilo que foi transformado. Quanto à acessibilidade, é simples de entender e de executar – desde que haja empenho: todos devem conseguir entrar, se orientar, circular e usar os serviços com facilidade e autonomia.

Nadamos, nadamos, e morremos na “Prainha” – Há pelo menos 4 anos atrás estive em um debate importante junto com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN sobre o projeto de acessibilidade do Convento. Foi animador e esperançoso. Mas, acho que o movimento e a participação não foram fortes o suficiente para fazer acontecer.

Está na Lei e é para fortes – os desafios são gigantescos, mas, de maneira alguma, arrefecem o nosso entusiasmo e otimismo. Que a Romaria das Pessoas com Deficiência reacenda – sempre – o debate sobre o acesso pleno ao Convento da Penha e, quem sabe nas próximas festas não somos convidados a entrar, cantar, renovar a nossa fé, e contemplar lá do alto a tão esplendorosa vista? Assim seja!

Igreja e Convento de Nossa Senhora da Penha, em Vila Velha, Espirito Santo. Na imagem , aparece toda a construção, na cor branca no topo de um monte sobre as pedras e apenas uma escada de muitos degraus.

 




Reatech: Tecnologia e acessibilidade ao alcance de todos

brinquedosteaser (2)

Maior feira de reabilitação da América Latina, a Reatech, que aconteceu em abril em São Paulo, movimenta um mercado que cresce muito: em 2013, o setor movimentou cerca de R$4,5 bilhões e cresceu 18%, segundo dados da ABRIDEF – Associação Brasileira da Indústria e Revendedores e Serviços para Pessoa com Deficiência.

Em meio a robôs, próteses ultramodernas, cadeiras de rodas inovadoras, adaptações alternativas para veículos, sistemas de comunicação para surdos e cegos, entre outras tecnologias assistivas de ponta, o Instituto Mara Gabrilli (IMG) apostou na forma mais simples de se incluir uma pessoa com deficiência: brincando.

O sucesso das oficinas é prova de que o público da Reatech vai à feira para encontrar não só novidades tecnológicas, mas também soluções simples e baratas para o dia a dia. Neste aspecto, essa última edição da feira deixou a desejar.

Pode ser mais simples – Laís Souza, que ficou tetraplégica recentemente, me encontrou na feira e contou que estava à busca de uma cinta abdominal. Não encontrou. Outra amiga, que tem esclerose múltipla, comentou não ter encontrado nenhum estande com objetos do dia a dia para quem tem problemas de locomoção.

Por outro lado, vi novidades tecnológicas na feira que podem mudar a vida de muita gente, como um scanner com voz, que ao ser conectado ao computador digitaliza livros, revistas e outros textos impressos e reproduz em áudio. O equipamento é ideal para usuários cegos e com baixa visão, idosos e pessoas com problemas cognitivos.

Vou trabalhar para que as escolas públicas tenham esse scanner disponível aos alunos com deficiência visual. Imaginem a diferença que isso fará para o aprendizado dos alunos com deficiência?

Costumo dar meu próprio exemplo: ao chegar à Câmara Federal – sem movimentar pernas e braços – fui a primeira tetraplégica a votar por meio de um sistema que funciona com o movimento do meu rosto.

Se hoje desempenho minhas atribuições parlamentares com afinco, é porque tenho acesso às tecnologias que anulam qualquer impedimento motor. É por essa tecnologia, que resgata a autonomia e a capacidade de produzir das pessoas, que temos que trabalhar.

O Brasil conta hoje com mais de 45 milhões de pessoas com deficiência que representam não só um nicho de mercado com grande potencial, e mais : um contingente que tem muito a contribuir para todo país.

 

 

 




Giovanna Maira – voz e presença espirituosa

Lilian-Fernandes-claudia-matarazzo

Giovanna Maira e Lilian Fernandes

 Conheço a cantora lírica Giovanna Maira há cerca de 10 anos, sempre acompanho seu trabalho nas redes sociais, mas há muito tempo não nos encontrávamos.

Giovanna é cega e canta em várias línguas em casamentos e ocasiões especiais. É jovem, linda e vaidosa – e possui uma voz poderosa e emocionante.

Trabalho no Hospital de Cancer de Barretos há 1 ano e 4 meses e, mesmo a conhecendo durante todo esse tempo, não conhecia sua história em detalhes.

Daí minha surpresa ao descobrir que foi o diretor do Hospital Infantil de Barretos, Dr. Luiz Fernando Lopes, o médico que diagnosticou – com apenas 1 ano e meio – a sua retinoplastoma, um agressivo câncer de retina e que, ao permitir uma intervenção precoce, salvou sua vida.

Ela perdeu a visão, mas ganhou tantos outros dons! Pois também foi ele quem a apresentou para a música clássica desde criança.

Hoje, Giovanna é formada pela USP em canto lírico e como tradutora e intérprete (inglês / português) – que para mim é um mistério, certamente pela dificuldade que tenho com qualquer idioma que não seja o português.

Nós nos reencontramos num evento do Hospital onde ela fez uma participação especial e encantou toda a platéia. Fiquei muito feliz, porque tive a chance de conversar melhor com ela e com sua família, que é incrível.

Certa vez, quando contei para o Dr. Luiz Fernando que achava que estava ouvindo menos, ele perguntou: – será que não aumentou seu grau de miopia?

Achei que era brincadeira, mas ele me explicou que lemos lábios desde que começamos a falar em quando temos dificuldade de enxergar a pessoa falando parece que escutamos menos.

Pois taí o maior desafio: a Gio traduz sem ler lábios.

O melhor de tudo: como ela canta em casamentos,muitas vezes a noiva escolhe a música, sem saber a letra e ela explica: “tem certeza? Essa música em inglês fala sobre divórcio, você vai querer que eu cante mesmo?” Ou então: ” essa outra música fala de uma gatinha agonizante antes da morte, mesmo assim você quer?”

E aí vem a grande vantagem de ter uma cantora e tradutora ao mesmo tempo…..

www.giovannamaira.com.br