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Com quantas letras se desfaz um preconceito?

 

Alguns teóricos da educação irão dizer: aprender tem a ver com afetos. Pois bem, chegamos aonde eu queria.

Precisamos dar mais espaço para os afetos, para o potencial humano de entender sobre a diversidade. Máquinas usam sistemas binários. Você e eu podemos muito mais que isso.

Podemos tanto que a sigla para abranger pessoas que não cabem em duas definições apenas – homem e mulher – é composta por letras que representam o quanto existe de belo e diverso em nossa espécie. Por isso, convido você, neste mês que está apenas começando, para ler as entrelinhas da sigla LGBTQIA+. Simples assim. Sete letras, facilmente pronunciáveis e um sinal positivo, que significa adição. E se você se esforçar um pouco, vai lembrar que as equações matemáticas eram bem mais complexas.

Que venham os dias de glória – ao ver uma apresentadora de TV se atrapalhando e repetindo letras aleatórias para se referir ao público que é representado pela sigla, não pude deixar de enxergar ali uma verdadeira falta de informação que reforça a perpetuação do preconceito e discriminação. Todos nós, incluindo lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queer, intersexuais, assexuais e demais identidades de gênero merecemos respeito. Respeito pela orientação sexual e identidades de gênero.

Ainda que o mês seja para reforçar o combate a homofobia e transfobia, não é raro vemos falas revestidas por puro ódio e repulsa. Nossa luta diária é para nos esquivar dos golpes de julgamentos nefastos que insistem em nos atingir. Menos batalhas e mais glórias, por favor!

Participants celebrate the 42nd anniversary of the Sydney Gay and Lesbian Mardi Gras Parade in Sydney, Australia, February 29, 2020. REUTERS/Loren Elliott

Garantia de direitos, respeito às diferenças – nas últimas eleições, a  vereadora Erika Hilton, primeira mulher negra e trans, mais votada para a Câmara Municipal de São Paulo. Ao mesmo tempo algumas mulheres trans que também foram eleitas, sofrem com perseguições e ameaças de morte. Isso nos mostra o quanto as necessidades desse público, que são tão específicas, exigem preparo para superar tantos desafios.

Neste mês, que ressalta a lembrança da garantia de direitos e respeito às diferenças, tenhamos ânimo para não desistir.  Por mais que tenhamos vontade de não ver e nem ouvir as notícias trágicas do nosso Brasil, precisamos estar atentos e fortes, para não perdemos a chance de lutar por uma sociedade que reconheça inalienavelmente a dignidade das pessoas.

O preconceito mata e mata a nossa capacidade de amar o extremo ódio e intolerância que presenciamos todos os dias contra a comunidade LGBTQIA+ demonstra o quanto as pessoas se acham juízes do mundo, sem humanidade, e equivocados a respeito da diversidade. Num Brasil como o que estamos vivendo hoje, desconhecemos o valor das necessidades do outro, e realçamos o desrespeito na sua intensidade.

A violência contra essa população produz desordens psicológicas e fisiológicas que interferem no bem-estar, e muito repercutem negativamente na interação social e na sua vida diária. Por isso, a produção de políticas públicas, sociais e de saúde, sobre o combate a tais problemas e garantia dos direitos humanos se fazem necessárias para enfrentarmos os golpes contra a moral.

Intolerância apenas com a discriminação – basta – graças à organização social das pessoas LGBTQIA+, o Brasil não deverá fechar os olhos para questões que envolvem a afetividade e o amor entre as pessoas, mas ainda há um caminho longo a ser percorrido para se distanciar da intolerância. E, as conquistas das últimas décadas fazem com que as pessoas LGBTQIA+ se constituam cada vez mais como sujeitos de direito.

Espero que possamos ampliar a visão, a mente, para essa e outras situações que revelam ser imprescindíveis novos esforços, de todos os lados, para que o conceito de “todos iguais perante a lei” se multiplique e se fortaleça diante da ignorância e das trágicas atitudes de preconceitos, da falta de informação, de profissionalismo e principalmente, falta de dignidade.

 

 




Desistir para ganhar: o que o BBB nos ensina

O que era para ser entretenimento virou um sofrimento avassalador. Diante da repercussão do mais opressor dos programas do BBB, edição 2021, precisei assistir aos vídeos para entender, escrever e comprovar tamanha falta de afetividade dos brothers. Pra mim, a maior de todas as deficiências.

BBB Brasil divulgação: Globo

Durante as duas semanas de programa, foi nítido o desprezo com que o grupo tratou esse rapaz. Numa conversa (que raramente se conseguia), eles classificaram Lucas como vagabundo quando falava da sua fase como estudante. Ele tentou dialogar com todos dentro daquela casa e foi chamado de manipulador. O cara já estava falando sozinho, até por devaneios, com tanta loucura dos outros, e por isso ele é quem foi chamado de doido. Ousou até pedir desculpas aos colegas. Desculpa de quê? Foi acusado de dissimulação. E por último tentou escapar num beijo e foi mais uma vez humilhado, enxotado, e chamado de aproveitador da causa LGBTQIA+.

A casa da violênciao Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+. Não dá pra esquecer disso. Aliás, é bom que a Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos lembre-se de inserir essa informação em seu discurso que fará no fim do mês na ONU. Lucas, esse menino de 24 anos merece muito mais que um prêmio de um milhão e meio de reais, ele merece o reconhecimento pela sua valentia, sorte e esforço para sobreviver aos tiros da polícia que matam a população negra. Isso representa setenta e cinco por cento das pessoas e, em sua maioria, estão os jovens de 15 a 29 anos. Lucas guerreiro.

Presenciou a mais um extermínio,  e foi violentado com doses fortes de preconceito e torturado pelo excesso de ódio. Assistimos ali dentro o que acontece aqui fora: a falta de esperança. A verdade é que estamos cansados daqueles que tentam nos enfiar goela abaixo esse tipo de programa, um jogo que arma com as emoções reais e nos faz sentir injustiçados, humilhados e ainda mais, nos faz entender o quanto as pessoas estão adoecidas com seus sentimentos e histórias de vida. É hora de tratamento e não desse tipo de entretenimento.

Lucas Penteado – foto divulgação: Globo BBB 21

Direitos contra a paredeo que mais me chama atenção é ver o grito por justiça entalado na garganta do Lucas – que parece ser negado aqui fora também. Os ignorantes que percebem a injustiça, mas seguem firmes para preservar seus privilégios. Ali dentro tem uma opressão atualizada, uma confusão de valores. O paredão para os iguais ao Lucas, negro, pobre, bissexual, artista etc., é todo dia. Não é tarefa fácil viver num país assim, quem dirá num confinamento

Vejo como um ato nobre de coragem a decisão que Lucas tomou ao sair desse show de horrores.  Eu diria que sua forma de agir apontou que a transformação está em curso. Sua decisão acende um caminho para o entendimento das pessoas com os seus desejos. Da sua busca pela autenticidade. Da luta por direitos humanos.

Preconceito nunca é bem-vindocomo seria ter uma pessoa com deficiência ali nos dias de hoje?  No que se transformou o programa é bom não pagar pra ver. Socorro! O que aconteceu com o Lucas foi injusto e quem merecia sair ou ser advertido, não foi. Isso significa que ainda nos falta consciência dos problemas para além do jogo e que nos afligem, e que não temos os mecanismos para combatê-los.

Que o exemplo dele nos sirva. Que sua conquista individual e sofrida ajude a nos empoderar para uma ação coletiva, de consciência social dos direitos. E ele chacoalhou vários ali em duas semanas, não é? Que possamos promover mudanças e não nos falte material para o paredão que construiremos, junto com você, Lucas, para que não passem aqueles que minam a busca por direito à autonomia, por suas escolhas e suas lutas. Se você soubesse…




Quais idades você tem?

Ao contrário de muitos que não encaram bem essas datas, por não se sentirem bem com os ciclos que se fecham ou vivendo o seu inferno astral, eu me jogo para assoprar o passado, enxergar como mais uma etapa concluída e da possibilidade de comemorar a chegada de uma nova idade com alegria e positividade.

Sobrevivendo ao inferno astralmas não se trata somente de ter um olhar positivo sobre a vida. É sobre viver o tal inferno astral com tudo que ele traz, saboreando cada um dos sentimentos. Dúvidas, expectativas, alegrias, decepções, comemorações, saudade, esperança. E, para mim, vem tudo em dobro, pois são dois nascimentos que o 12 de janeiro me traz. Aliás, no meio de uma pandemia, esses sentimentos me causaram uma turbulência interna. Precisei do silêncio para entender o estrondo do dia a dia. Meu coração continua estreito sem espaço para respirar. Diante de tempos tão tristes, alargar a alma para enxergar as sutilezas da vida tem sido difícil.

O importante é saber que escrevi minha história o primeiro aniversário, daquele que consta na certidão de nascimento, sinto o peso da experiência: pelos esquecimentos aleatórios, pela recuperação mais demorada de uma noite mal dormida, pelos meus cabelos brancos, pelos sinais no rosto. Apesar da idade não combinar muito comigo, o cotidiano me mostra que as contas do tempo estão certas, mesmo eu desejando que estivessem erradas.

O segundo, o de ser cadeirante, o do meu acidente, o de que entender a vida é soltar as possibilidades. Este me lembra a juventude e me permito comer sem preocupação de engordar, de virar a noite com os amigos, de não me preocupar com contas a pagar, de viajar sem reserva em hotel, de se recuperar rápido de uma gripe ou viroses, e muito mais. Essas são as vantagens de se comemorar dois aniversários, duas idades, você pode virar a chave e escolher qual será mais oportuna para cada momento.

Novos ciclos de vida e o melhor sempre estar por vir nesse ano encontrei na escrita e no mergulho profundo em mim mesma outras maneiras de alimentar minha esperança, entendendo que nada está pronto e tudo está por ser construído. Passei a considerar que muitos ciclos de desafio se repetem e que, quando aceitamos o que passamos como um aprendizado, nos tornamos mais fortes e aptos a vencermos com mais facilidade o que vier. Que venha no vagar que é para dar tempo de saborear cada experiência, cada sentimento.

Para não esquecer, que me venha fartura de sabedoria para fazer escolhas e para tomar decisões. Que jorrem bênçãos sobre todos os meus dias. E que eu tenha pés e rodas firmes para a caminhada rumo a tudo o que me dá prazer. Que seja bom para mim, não prejudica ninguém e é bom para o todo. Que eu pratique a aceitação de coração aberto, não julgue os outros e me veja como um ser espiritual em evolução. E que em breve não nos falte os ingredientes principais: vacina, bolo, palmas, conversa leve e risadas soltas. Felizes dias!




As armadilhas do decreto 10.502

No último 30 de setembro, o governo nos presenteou ia com o decreto que institui a Política Nacional de Educação. Um verdadeiro “soco no estômago” de quem, há décadas, luta por uma educação igualitária respeitando as singularidades de seus alunos.

 

A segregação nas entrelinhas – fragilidade e crueldade disfarçadas por trás de palavras doces. O artigo sétimo fere tão gravemente documentos internacionais e constitucionais sobre a Política da Pessoa com Deficiência que chega a ser o cúmulo da falta de respeito e de civilidade. Na verdade, todo o texto é uma afronta aos direitos adquiridos pelo movimento.

O artigo sétimo nos empurra para o paredão da segregação sem dó nem piedade. Ele “propõe a criação de centros bem específicos, como deficiência visual, deficiência intelectual, transtorno global de desenvolvimento, deficiência físico-motora, superdotação, surdez”. Bem mais que desmerecer a diversidade e características humanas, o artigo aponta para nós dizendo que a escola comum não é lugar para quem tem deficiência. Socorro!

A Educação prepara para o mundo e o mundo é um só – como professora e gestora pública sempre entendi que conviver com a diversidade exige de nós novos posicionamentos, não só metodológico ou instrumental, mas também ético. Aí está o grande desafio para que um projeto de inclusão aconteça com sucesso. A realidade das nossas escolas é cercada por enormes desafios e de muitas tarefas a cumprir para atender a missão de ensinar a todos.

Não vamos nos calar diante de tamanho retrocesso e nem tampouco vamos permitir ofuscar o mais de um milhão de alunos matriculados na Educação Especial das escolas nos últimos doze anos. Pessoas com deficiência são reconhecidas por sua luta incessante pela igualdade e por reivindicar respeito aos direitos conquistados. Manter o foco sobre temas relacionados a essas conquistas é romper com a forma nefasta com que nos agridem documentos como esse.

Termino com uma reflexão do professor Boaventura de Souza Santos: temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades.

Não se iluda. Trazer as pessoas com deficiência para todos os espaços comuns da sociedade e avançar no conhecimento pode ser ameaçador para aqueles que permanecem na barreira do desrespeito, da desigualdade e da discriminação.

 

 




Que nada nos limite!

Durante os meus quatro meses de isolamento social li e escutei muitas vezes de algumas pessoas, que acomodadas no discurso da quarentena, justificam suas próprias limitações. Não quero aqui afrouxar a responsabilidade do Governo em contemplar em suas políticas públicas a pessoa com deficiência em todos os sistemas gerais da sociedade. É uma luta que temos e que resistimos mesmo diante dos dados que insistem em se apagar diante de tantas incertezas. Afinal, somos 46 milhões de pessoas com deficiência espalhados por esse Brasil que, mesmo sem acesso, encaram a vida para serem, em primeiro lugar, pessoas.

A luta começa no café da manhã – essa absurda comparação me deixa em alerta. Assustada para dizer o mínimo, porque estamos num momento pandêmico e as lutas internas e pessoais jamais vão podem ser comparadas às lutas coletivas contra um vírus que é letal a todos com ou sem deficiência. As pessoas que fazem essa comparação são justamente as que poderiam reforçar o time para aumentar as contratações no mercado de trabalho, compreender e praticar a mudança de conceitos, participar ou ajudar a formar os Conselhos, lutar para que as escolas não rejeitem matrículas, exigir que 100% da frota de ônibus seja acessível, cobrar da OMS nossa inclusão como grupo de risco, já que demandamos mais contato para nos locomover, e seria justo termos atendimento prioritário diante da situações provocadas pela covid-19.

Desafio invisível – nunca na história da nossa geração vivenciamos um isolamento social onde o abraço nos foi retirado. Onde receber um amigo em casa virou um risco de contágio. Essa falta de acesso ao carinho e ao encontro dos nossos sentimentos nos foi excluído sem nossa permissão. A invisibilidade que conhecemos e usamos para nos referirmos à falta de acesso, jamais será fatal como a invisibilidade de um vírus que está entre nós. Ainda está.

A acessibilidade é muito importante, mas não é o grande desafio. Ela é uma questão técnica que se resolve de várias maneiras. O grande desafio hoje é escapar do invisível sem ser infectado. Eu quero ser incluída quando a comparação for feita entre os que conseguiram sair dessa com a vida preservada e os que batalham para que o viver seja, ainda que nos falte acesso mas nunca coragem, um lugar onde se acredita, exista respeito, que seja digno, um lugar que se construa cidadania, onde a gente lute por direitos e que possamos ser felizes.